Maus-tratos a animais em plataformas digitais acendem alerta para famílias

Crescimento de casos envolvendo gatos expõe a relação entre violência online, busca por notoriedade e riscos à formação de adolescentes em ambientes digitais

A circulação de conteúdos violentos envolvendo animais em plataformas digitais tem preocupado autoridades, pesquisadores e organizações de defesa de direitos. Apuração de relatórios do Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil de São Paulo, o NOAD, indicam que os registros de maus-tratos a gatos na internet cresceram de forma expressiva em menos de três anos, com destaque para comunidades fechadas em plataformas de comunicação digital.

Apenas nos três primeiros meses de 2026 foram contabilizados 385 casos de maus-tratos a gatos na internet. Em 2024, haviam sido identificados 175 casos. Em 2025, o número chegou a 340 ocorrências. O avanço dos registros revela a ampliação da capacidade investigativa para mapear práticas criminosas em ambientes digitais e mantém o alerta para que famílias e profissionais da educação dialoguem com as crianças e adolescentes sobre os riscos de algumas comunidades virtuais.

A preocupação central das autoridades está no modo como esses conteúdos circulam. Em muitos casos, a violência contra animais aparece associada à busca por reconhecimento dentro de comunidades online, especialmente em grupos fechados. Nessas dinâmicas, atos de crueldade podem ser tratados como desafios, provas de pertencimento ou formas de ganhar visibilidade entre pares.

Esse fenômeno exige uma leitura que vá além da segurança pública. Para o LabCidig, trata-se também de uma questão de cidadania digital, formação ética e proteção integral de crianças e adolescentes. Ambientes digitais não são espaços neutros: eles organizam relações, estimulam comportamentos, produzem pertencimentos e podem favorecer processos de dessensibilização diante da violência.

Para a delegada Lisandre Salvariego, coordenadora do NOAD, adolescentes e jovens do sexo masculino aparecem com frequência entre os envolvidos nesse tipo de prática. Esse dado reforça a necessidade de ações educativas voltadas à cultura digital, masculinidades, empatia, responsabilidade ética e reconhecimento dos impactos sociais da violência online.

Outro ponto sensível é o papel das plataformas. Nosso coordenador, professor André Dala Possa, reforça que pelas estatísticas oficiais o Discord é um dos principais ambientes em que esse tipo de conteúdo tem sido identificado, especialmente por meio de servidores fechados e transmissões ao vivo. “O Telegram também aparece como segunda rede com maior número de ocorrências”, disse.

No Brasil, maus-tratos contra animais são crime previsto na Lei nº 9.605/1998. Desde 2020, quando a violência é praticada contra cães ou gatos, a pena passou a ser mais severa, podendo incluir reclusão, multa e proibição da guarda. As denúncias podem ser encaminhadas diretamente a Delegacia Virtual de Proteção Animal, de forma anônima, neste link.

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