O luto que devasta a sociedade, e infelizmente não surpreende

Vitor Gabriel Mezetti tinha 15 anos e morreu na madrugada deste sábado em Chapecó. Segundo informações da imprensa, foi golpeado por colega de 16 anos, que usou um canivete, no pátio de sua escola, durante ou após uma discussão. O estudante sofreu parada cardíaca no local, passou por cirurgia e não resistiu. Ele tinha a vida inteira pela frente.

Diante de uma morte assim, o primeiro impulso é o luto. E o luto é necessário, legítimo e urgente. Vitor merece ser lembrado pelo que era: um adolescente de 15 anos com vida, história e futuro. Não como mais um dado estatístico, não como pauta de segunda-feira. É o filho que sai para estudar e não volta mais.

Mas há algo que me atravessa junto ao luto: a ausência de surpresa.

Não porque a morte de um jovem dentro de uma escola seja banal. Nunca será. Mas porque Santa Catarina registrou 7.719 ocorrências de violência nas escolas estaduais apenas em 2024 — 21 casos por dia. Porque o Brasil viu casos de autoviolência entre estudantes crescerem 95 vezes em dez anos. Porque, desde 2002, foram mais de quarenta episódios de violência extrema em escolas brasileiras, dois deles aqui mesmo, em Saudades e em Blumenau. A morte de Vitor acontece em um estado que já conhece demais esse tipo de dor.

A investigação da Polícia Militar apontou que o caso não foi um ataque planejado à escola, foi uma desavença entre adolescentes com conflitos anteriores que escalou até o irreversível. Essa distinção importa juridicamente. Mas ela não nos deve deixar confortáveis. Uma briga que evolui para golpe fatal dentro de uma escola não é acidente. É sintoma. É o ponto final de uma história que começou antes; no corredor, no grupo de mensagens, no pátio de recreio, nos conflitos que não encontraram mediação.

É preciso reconhecer o que funcionou: professores e funcionários da Escola Tancredo de Almeida Neves aplicaram protocolos de segurança aprendidos em treinamentos. Salas foram trancadas, acessos bloqueados. Isso não é pouco. O Comitê Integra da Assembleia Legislativa (ALESC) é um exemplo de política estratégica. O Programa Escola que Protege, formalizado pelo Ministério da Educação em 2025, e os investimentos de R$ 3,1 bilhões em prevenção desde 2023 são avanços reais que precisam ser reconhecidos. A política pública existe. E, felizmente, tem funcionado.

O que nos falta, e é urgente discutir, é o que vem antes.

Há anos venho pesquisando a interseção entre cidadania digital, saúde infantojuvenil e violência escolar. O que a ciência tem mostrado, de forma consistente, é que a violência extrema raramente surge do nada. Ela cresce onde conflitos menores foram ignorados, onde jovens não encontraram adultos disponíveis para ouvir, onde a escola se tornou território de acúmulo de tensão sem válvula de escape. E onde o digital e o presencial se fundem sem que nenhum adulto ao redor saiba o que está acontecendo nos dois mundos.

Precisamos falar, com seriedade e sem eufemismo, sobre três urgências.

A primeira é formar para além dos currículos normativos. Conteúdo importa. Mas um adolescente que não sabe nomear o que sente, que não aprendeu a resolver conflitos sem violência, que nunca teve um espaço seguro para falar de raiva, medo e humilhação — esse adolescente chegará ao pátio da escola carregando tudo isso sem ‘ferramenta’ nenhuma. Educação socioemocional, práticas restaurativas e letramento digital crítico não são “extras curriculares”. São condições de segurança.

A segunda é que as famílias precisam se aproximar. Não para vigiar, para escutar. Saber o nome dos amigos, conhecer os professores, perguntar como foi o dia sem já ter a resposta na cabeça. Num mundo em que crianças e adolescentes vivem online e presencialmente ao mesmo tempo, os vínculos familiares são a primeira rede de proteção, e a mais frágil quando ausente. A escola não pode substituir o que a família precisa oferecer. Mas a família também não pode terceirizar para a escola o que é sua responsabilidade afetiva.

A terceira é que famílias e escolas precisam parar de se olhar como adversárias. O professor que vê um sinal de alerta num aluno precisa ter um canal para falar com a família e encontrar do outro lado alguém disposto a ouvir, não a contestar. A escola que abre espaço para pais e responsáveis conhecerem seus profissionais, seus protocolos e seus desafios constrói, antes de qualquer câmera ou detector de metais, algo que nenhuma tecnologia substitui: confiança.

Vitor vai ser enterrado neste domingo em Chapecó. Seus amigos já se despediram. O luto é real, e não há palavra que diminua isso.

Mas se esse luto não nos mover enquanto pesquisadores, educadores, pais, gestores públicos e cidadãos, a refletir coletivamente sobre o que estamos fazendo e deixando de fazer para as crianças e adolescentes deste estado, então ele terá sido luto sem aprendizado.

E esse, sim, é o tipo de tragédia que escolhemos.

André Dala Possa

André Dala Possa

Atuo na rede de educação profissional, científica e tecnológica junto aos cursos de bacharelado em design; engenharias elétrica, eletrônica, civil…

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